24 de fevereiro de 2011

Ovalle

Jayme Ovalle (1894 - 1955)


Estavas bem mudado.
Como se tivesses posto aquelas barbas brancas
Para entrar com maior decoro a Eternidade.

Nada de nós te interessava agora.
Calavas sereno e grave
Como no fundo foste sempre
Sob as fantasias verbais enormes
Que fazias rir os teus amigos e
Punham bondade no coração dos maus.

O padre orava:
- "O coro de todos os anjos te receba..."
Pensei comigo:
Cantando "Estrela brilhante
Lá do alto-mar!..."

Levamos-te cansado ao teu último endereço.
Vi com prazer
Que um dia afinal seremos vizinhos.
Coversaremos longamente
De sepultura a sepultura
No silêncio das madrugadas
Quando o orvalho pingar sem ruído
E o luar for uma coisa só.

10 de fevereiro de 2011

Satélite


Fim de tarde.
No céu plúmbeo
A Lua baça
Paira
Muito cosmograficamente
Satélite.
Desmetaforizada,
Desmitificada,
Despojada do velho segredo de melancolia,
Não é agora o golfão de cismas,
O astro dos loucos e dos enamorados,
Mas tão-somente
Satélite.

Ah, Lua deste fim de tarde,
Demissionária de atribuições românticas,
Sem show para as disponibilidades sentimentais!

Fatigado de mais-valia,
Gosto de ti assim:
Coisa em si,
- Satélite.

6 de fevereiro de 2011

Acalanto

PARA AS MÃES
QUE PERDERAM
O SEU MENINO

Dorme, dorme, dorme...
Quem te alisa a testa
Não é Malatesta,
Nem Pantagruel
- O poeta enorme.
Quem te alisa a testa
É aquele que vive
Sempre adolescente
Nos oásis mais frescos
De tua lembrança.

Dorme, ele te nina.

Te nina, te conta
- Sabes como é -,
Te conta a experiência
Do vário passado,
Das várias idades.
Te oferece a aurora
Do primeiro riso.
Te oferece o esmalte
Do primeiro dente.

A dor passará,
Como antigamente
Quando ele chegava.

Dorme... Ele te nina
Como se hoje fosses
A sua menina.

5 de fevereiro de 2011

Alegrias de Nossa Senhora

Fra Angelico (1400 - 1455)
(Texto de oratória extraído do poema de uma monja carmelita.)

I

Recitante
O anjo traz a mensagem,
Prostra-se perante a Virgem e anuncia:

Anjo
O Filho de Deus quer ser teu filho, Maria;
Porque és cheia de graça e bendita entre as mulheres.

Recitante
A donzela, em sua humildade, torna-se grande;
Eleva-se acima da condição humana;
Atinge os confins da divindade.
Ó Virgem, que vais responder?
Maria cruza as mãos sobre o peito,
Inclina-se reverente:

Maria
Sou a escrava do Senhor:
Faça-se em mim segundo tua palavra.

Coro
Ó santas alegrias, castíssimas delícias
Da maternidade virginal!
Maria já é Mãe de Deus.
O filho é o mesmo Verbo Divino
eternamente gerado pelo Pai.
Feliz a Virgem Maria, cujo seio contém o próprio Deus!

II

Recitante
Caminha a Virgem pelas montanhas de Judá.
Tudo respira serenidade.
O cabrito montês brinca nos cimos mais altos.
Maria vai visitar Isabel.
Troca-se em paraíso a casinha branca da montanha.
Isabem, ao ouvir a saudação de Maria, exclama, cheia do Espírito Santo:

Isabel
Bendita tu entre as mulheres
E bendito o fruto de teu ventre!

Recitante
O menino salta no ventre da Mãe e Maria canta:

Maria
Minh'alma engrandece ao Senhor.
Meu espírito se alegra em Deus meu Salvador
Porque atentou na baixeza de sua serva.
Desde agora todas as gerações me chamarão bem-aventurada.
Grandes coisas me fez o Poderoso,
Grandes coisas faz o Poderoso:
Depõe dos tronos os soberbos
E eleva os humildes;
Enche de bens os famintos
E despede vazio os ricos.
Santo é seu nome.

Coro
Aleluia! Aleluia! Aleluia!

III

Recitante
Noite feliz!
Começa em Belém a Missa da vida de Jesus.
Chegam os magos do Oriente, com as suas dádivas:
Ouro, incenso, mirra.
Pastores socorrem com as suas cornamusas, gaitas, flautas.
E cantam ao Messias recém-nascido:

Coro de pastores
Glória a Deus nas alturas!
A Virgem-Mãe vela o seu menino.
Todo o que nele crer, terá a vida eterna.
Glória a Deus nas alturas!

IV

Recitante
Crescia o menino e se fortalecia em espírito e sabedoria
E a graça de deus estava sobre ele,
Ora, todos os anos ia a Santa Família a Jerusalém, à festa da Páscoa.
De uma feita o menino na cidade e não o souberam os pais.
Ao cabo de três dias o acharam no templo, sentado entre os doutores,
Que o ouviam admirados de suas respostas.
Disse-lhe então Maria:

Maria
Filho, porque fizeste assim para conosco?
Teu pai e eu te buscávamos, ansiosos.

Recitante
Ao que Jesus responde:

Jesus (menino de doze anos)
Porque me buscáveis?
Não sabeis que me convém tratar das coisas do Pai?

Recitante
E Maria:

Maria
Achei aquele a quem minh'alma adora.
Recobrei-o e não deixarei mais perder.
Meu espírito se alegra em meu Filho e Salvador.

Coro
Santo! Santo! Santo!

V

Recitante
A Hóstia Divina foi imolada no Calvário.
Ao terceiro dia foram as santas mulheres ao Sepulcro.
Estava a pedra removida e não acharam o corpo do senhor Jesus.
então dois varões de vestes resplandecentes falaram:

Os dois varões
Porque buscais o vivente entre os mortos?
Não está aqui, já ressuscitou.
Lembrai-vos do que vos disse na Galiléia:
"Convém que o Filho do homem seja entregue nas mãos dos homens pecadores,
"E seja crucificado,
E ao terceiro dia ressuscite."

Coro
Morte, onde está tua vitória?
Pela primeira vez foste vencida.
Maria, Mãe de Deus, alegra-te!
Teu filho ressurgiu, divino.
Hosana! Hosana! Hosana!