27 de janeiro de 2011

Oração para Aviadores

Santa Clara, clareai
Estes ares.
dai-nos ventos regulares,
De feição.
Estes mares, estes ares
Clareai.

Santa Clara, dai-nos sol,
Se baixar a serração,
Alumiai
Meus olhos na serração.
Estes montes e horizontes
Clareai.

Santa Clara, no mau tempo
Sustentai
Nossas asas.
A salvo de árvores, casas
E penedos, nossas asas
Governai.

Santa Clara, clareai
Afastai
Todo risco.
Por amor de São Francisco,
Vosso mestre, nosso pai,
Santa Clara, todo risco
Dissipai.

Santa Clara, clareai.

18 de janeiro de 2011

Cântico dos Cânticos

- Quem me busca a essa hora tardia?
- Alguém que treme de desejo.
- Sou teu vale, zéfiro, e aguardo
Teu hálito... A noite é tão fria!
- Meu hálito não, meu bafejo,
Meu calor, meu túrgido dardo
- Quando por mais assegurada
Contra os golpes de Amor me tinha,
Eis que irrompes por mim deiscente...
- Cântico! Púrpura! Alvorada!
- eis que me entras profundamente
Como um deus em sua morada!
- Como a espada em sua bainha.

11 de janeiro de 2011

Lua Nova

Meu novo quarto
Virado para o nascente:
Meu quarto, de novo a cavaleiro de entrada da barra.

Depois de 10 anos de pátio
Volto a tomar conhecimento da aurora.
Volto a banhar meus olhos no mênstruo incruento das madrugadas.

Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir:
Hei de aprender com ele
A partir de uma vez
- Sem medo,
Sem remorsos,
Sem saudade.

Não pensem que estou aguardando a lua cheia
- Esse sol da demência
Vaga e noctâmbula.
O que eu mais quero,
O de que preciso
É de lua nova.

Rio, agosto de 1953

9 de janeiro de 2011

Consoada

Quando a indesejada das gentes chegar
(Nâo sei se dura ou caroável),
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
- Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

4 de janeiro de 2011

Os Nomes

Duas vezes se morre:
Primeiro na carne, depois no nome.
A carne desaparece, o nome persiste mas
Esvaziando-se de seu casto conteúdo
- Tantos gestos, palavras, silêncios -
Até que um dia sentimos,
Com uma pancada de espanto (ou de remorso?),
Que o nome querido já nos soa como os outros.

Santinha nunca foi para mim o diminutivo de Santa.
Nem Santa nunca foi para mim a mulher sem pecado.
Santinha eram dois olhos míopes, quatro incisivos claros à flor da boca.
Era a intuição rápida, o medo de tudo, um certo modo de dizer "Meu Deus, valei-me".

Adelaide não foi para mim Adelaide somente,
Mas Cabeleira de Berenice, Inominata, Cassiopéia.
Adelaide hoje apenas substantivo próprio feminino.

Os epitáfios também se apagam, bem sei.
Mais lentamente, porém, do que as reminiscências
Na carne, menos inviolável do que a pedra nos túmulos.

Petrópolis, 28 de fevereiro de 1953

3 de janeiro de 2011

Aos amigos leitores de Manuel

Obrigado a todos vocês por estarem aqui lendo poesia brasileira.
Muita gente diz que os poetas não têm espaços públicos, editoras amigáveis, incentivos e até mesmo musas para seus escritos. Também acho. Mas mesmo sendo um espaço para um poeta amado e consagrado como Manuel Bandeira, esse blog tem a clara intenção de ser um espaço para que outros e mais poetas venham e se façam conhecer formando um grande jogo de dizer, recitar, gritar, escrever e explodir poesia pra todos e pra todo canto.
Então vamos jogar poesia no mundo. Mantenham seus blogs, mantenham seus criados-mudos cheios de livros e caderninhos de anotações.
No mais, é só escrever e escrever e agradecer por vocês me incentivarem a manter o blog atualizado com mais trabalhos do nosso querido poeta.

Feliz 2011!