28 de outubro de 2010

Tema e Variações

Sonhei ter sonhado
Que havia sonhado.

Em sonho lembrei-me
De um sonho passado:
O de ter sonhado
Que estava sonhando.

Sonhei ter sonhado...
Ter sonhado o quê?
Que havia sonhado
Estar com você.
Estar? Ter estado,
Que é tempo passado.

Um sonho presente
Um dia sonhei.
Chorei de repente,
Pois vi, despertado,
Que tinha sonhado.

27 de outubro de 2010

Cotovia
















Alô, cotovia!
Aonde voaste,
Por onde andaste,
Que tantas saudades me deixaste?

- Andei por onde deu o vento,
Onde foi meu pensamento.
Em sítios que nunca me viste,
De um país que não existe...
Voltei, te trouxe a alegria.

- Muito contas, cotovia!
E que outras terras distantes
Visitaste? Dize ao triste.

- Líbia ardente, Cítia fria,
Europa, França, Bahia...

- E esqueceste Pernambuco,
Distraída?

- Voei ao Recife, no Cais
Pousei da Rua da Aurora.

- Aurora da minha vida,
Que os anos não trazem mais!

Os anos não, nem os dias,
Que isso cabe às cotovias.
Meu bico é bem pequenino
Para o bem que é deste mundo:
Se enche com uma gota d'água.
Mas sei torcer o destino,
Sei no espaço de um segundo
Limpar o pesar mais fundo.
Voei ao Recife, e dos longes
Das distâncias, aonde alcança
Só a asa da cotovia,
- Do mais remoto e perempto
Dos teus dias de criança
Te trouxe a extinta esperança,
Trouxe a perdida alegria.

25 de outubro de 2010

Boi Morto

Como em turvas águas de enchente,
Me sinto a meio submergido
Entre destroços do presente
Dividido, subdividido,
Onde rola, enorme, o boi morto,

Boi morto, boi morto, boi morto.

Árvores da paisagem calma,
Convosco - altas, tão marginais! -
Fica a alma, a atônita alma,
Atônita para jamais,
Que o corpo, esse vai com o boi morto,

Boi morto, boi morto, boi morto.

Boi morto, boi descomedido,
Boi espantosamente, boi
Morto, sem forma ou sentido
Ou significado. O que foi
Ninguém sabe. Agora é boi morto,

Boi morto, boi morto, boi morto.

24 de outubro de 2010

Infância

Corrida de ciclistas.
Só me lembro de um bambual debruçado no rio.
Três anos?
Foi em Petrópolis.

Procuro mais longe em minhas reminiscências.
Quem me dera recordar a teta negra de minh’ama-de-leite...
... meus olhos não conseguem romper os ruços definitivos do tempo.

Ainda em Petrópolis... um pátio de hotel... brinquedos pelo chão...

Depois a casa de São Paulo.
Miguel Guimarães, alegre, míope e mefistofélico,
Tirando reloginhos de plaquê da concha da minha orelha.
O urubu ousado no muro do quintal.
Fabrico uma trombeta de papel.
Comando...
O urubu obedece.
Fujo, aterrado do meu primeiro gesto de magia.

Depois... a praia de Santos...
Corridas em círculos riscados na areia...
Outra vez Miguel Guimarães, juiz de chegada, com seus presentinhos.

A tatazana enorme apanhada na ratoeira.
Outro bambual...
O que inspirou a meu irmão o seu único poema:

"Eu ia por um caminho,
Encontrei um maracatu.
O qual vinha direitinho
Pelas flechas de um bambu."

As marés de equinócio.
O jardim submerso...
Meu tio Cláudio erguendo do chão uma ponta de mastro destroçado.

Poesia dos naufrágios!

Depois Petrópolis novamente.
Eu, junto do tanque, de linha amarrada no incisivo de leite, sem coragem de puxar.

Véspera de Natal... Os chinelinhos atrás da porta...
E a manhã seguinte, na cama, deslumbrado com os brinquedinhos trazidos pela fada.

E a chácara da Gávea?
E a casa da Rua Don’aAna?

Boy, o primeiro cachorro.
Não haveria outro nome depois
(Em casa até as cadelas se chamavam Boy).

Medo de gatunos...
Para mim eram homens com cara de pau.

A volta a Pernambuco!
Descoberta dos casarões de telha-vã.
Meu avô materno - um santo...
Minha avó batalhadora.

A casa da Rua da União.
O pátio - núcleo de poesia.
O banheiro - núcleo de poesia.
O cambrone - núcleo de poesia (‘La fraicheur des latrines!’).

A alcova de musica - núcleo de mistério.
Tapetinhos de pele de animais.
Ninguém nunca ia lá... Silêncio... Obscuridade...
O piano de armário, teclas amarelecidas, cordas desafinadas.

Descoberta da rua!
Os vendedores a domicílio.
Ai mundo dos papagaios de papel, dos piões, da amarelinha!

Uma noite a menina me tirou da roda de coelho-sai, me levou, imperiosa e ofegante, para um desvão da casa de dona Aninha Viegas, levantou a sainha e disse mete.

Depois meu avô... Descoberta da morte!

Com dez anos vim para o Rio.
Conhecia a vida em suas verdades essenciais.
Estava maduro para o sofrimento
E para a poesia.

Flor de Todos os Tempos

Dantes a tua pele sem rugas,
a tua saúde
Escondiam o que era
Tu mesma.

Aquela que balbuciava
Quase inconscientemente:
"Podem entrar."

A que me apertava os dedos
Desesperadamente
Com medo de morrer.

A menina.
O anjo.
A flor de todos os tempos.
A que não morrerá nunca.

11 de outubro de 2010

As Três Marias

Atrás destas moitas,

Nos troncos, no chão,

Vi, traçado a sangue,

O signo-salmão!


Há larvas, há lêmures.

Atrás destas moitas.

Mulas-sem-cabeça,

Visagens afoitas.


Atrás destas moitas

Veio a Moura-Torta

Comer as mãozinhas

Da menina morta!


Há bruxas luéticas

Atrás destas moitas,

Segredando a aragem

Amorosas coitas.


Atrás destas moitas

Vi um rio de fundas

Águas deletérias,

Paradas, imundas!


Atrás destas moitas...

- Que importa? Irei vê-las?

Regiões mais sombrias

Conheço. Sou poeta,

Dentro d’alma levo,

Levo três estrelas,

Levo as Três Marias!


Petrópolis, 2 de janeiro de 1950

2 de outubro de 2010

Arte de Amar

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.

A alma é que estraga o amor.

Só em Deus ela pode encontrar satisfação.

Não noutra alma.

Só em Deus – ou fora do mundo.


As almas são incomunicáveis.

Deixa teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.