28 de setembro de 2010

O Habitante de Pasárgada - Manuel Bandeira

Unidade

Minh’alma estava naquele instante

Fora de mim longe muito longe


Chegaste

E desde logo foi verão

O verão com suas palmas os seus mormaços os seus ventos de sôfrega mocidade

Debalde os teus afagos insinuavam quebranto e molície

O instinto da penetração já despertado

Era como uma seta de fogo


Foi então que minh’alma veio vindo

Veio vindo de muito longe

Veio vindo

Para de súbito entrar-me violenta e sacudir-me todo

No momento fugaz da unidade.


1948

26 de setembro de 2010

Nova Poética

Vou lançar a teoria do poeta sórdido.

Poeta sórdido:

Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.

Vai um sujeito,

Sai um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem engomada, e na primeira esquina passa um caminhão, salpica-lhe o paletó ou a calça de uma nódoa de lama:

É a vida.


O poema deve ser como a nódoa no brim:

Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.


Sei que a poesia é também orvalho.

Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento e as amadas que envelhecem sem maldade.


19 de maio de 1949


Presepe

Chorava o menino.

Para a mãe, coitada,

Jesus pequenito,

De qualquer maneira

(Mães o sabem...), era

Das entranhas dela

O fruto bendito.

José seu marido,

Ah esse aceitava,

Carpinteiro simples,

O que Deus mandava.

Conhecia o filho

A que vinha neste

Mundo tão bonito,

Tão mal habitado?

Não que ele temesse

O humano flagício:

O fel e o vinagre,

Escárnios, açoites,

O lenho nos ombros,

A lança na ilharga,

A morte na cruz.

Mais do que tudo isso

O amedrontaria

A dor de ser homem,

- Esse bicho estranho

Que desarrazoa

Muito presumido

De sua razão;

- Esse bicho estranho

Que se agita em vão;

Que tudo deseja

Sabendo que tudo

É o mesmo que nada;

- Esse bicho estranho

Que tortura os que ama;

Que ate mata estúpido,

Ao seu semelhante

No ilusivo intento

De fazer o bem!

Os anjos cantavam

Que o menino viera

Para redimir

O homem – essa absurda

Imagem de Deus!

Mas o jumentinho,

Tão manso e calado

Naquele inefável,

Divino momento,

Esse bem sabia

Que inútil seria

Todo o sofrimento

No Sinédrio, no horto,

Nos cravos da cruz;

Que seria inútil

O maior milagre;

Que inútil seria

Todo sacrifício...


1949

O Rio

Ser como um rio que deflui

Silencioso dentro da noite.

Não temer as trevas da noite.

Se há estrelas nos céus, refleti-las.

E se os céus se pejam de nuvens,

Como o rio as nuvens são água,

Refleti-las também sem mágoa

Nas profundidades tranqüilas.


Petrópolis, 1948


Jose Cláudio

Da outra vida,

Moreno,

Olha-me de face,

Com o bonito sorriso Pontual

Adoçado pela bondade do nosso avô Costa Ribeiro.

Olha-me de face,

Bem de face,

Com os olhos leais,

Moreno.


Conta-me o que tens visto,

Que músicas ouves agora.

Lembra-te ainda do cheiro dos bangüês de Pernambuco?

Das tuas correrias de menino pelos descampados da Gávea?

Lembras-te ainda da ponte que construíste sobre o Paraguai?

Do pastoril do Cícero?

Lembras-te ainda das pescarias de Cabo Frio?

(Elas te deram não sei que ar salino e veleiro,

Moreno.)


O espanto que nos deixaste!

Como fizeste crescer em nós o mistério augusto da morte!


Todavia,

Não te lamento não:

A vida,

Esta vida,

Carlos já disse,

Não presta.

Mas o vazio de quem

Eras marido e filho?

- Filho único, Moreno.


20 de setembro de 2010

Visita Noturna

Bateram à minha porta,

Fui abrir, não vi ninguém.

Seria a alma da morta?


Não vi ninguém, mas alguém

Entrou no quarto deserto

E o quarto logo mudou.

Deitei-me na cama, e perto

Da cama alguém se sentou.


Seria a sombra da morta?

Que morta? A inocência? A infância?

O que concebido, abortou,

O ou que foi e hoje é só distância?


Pois bendita a que voltou!

Três vezes bendita a morta,

Quem quer que ela seja, a morta

Que bateu a minha porta.


Rio, dezembro de 1947

O Bicho

Vi ontem um bicho

Na imundície do pátio

Catando comida entre os detritos.


Quando achava alguma coisa,

Não examinava nem cheirava:

Engolia com voracidade.


O bicho não era um cão,

Não era um gato,

Não era um rato.


O bicho, meu Deus, era um homem.


Rio, 27 de dezembro de 1947