26 de setembro de 2010

Presepe

Chorava o menino.

Para a mãe, coitada,

Jesus pequenito,

De qualquer maneira

(Mães o sabem...), era

Das entranhas dela

O fruto bendito.

José seu marido,

Ah esse aceitava,

Carpinteiro simples,

O que Deus mandava.

Conhecia o filho

A que vinha neste

Mundo tão bonito,

Tão mal habitado?

Não que ele temesse

O humano flagício:

O fel e o vinagre,

Escárnios, açoites,

O lenho nos ombros,

A lança na ilharga,

A morte na cruz.

Mais do que tudo isso

O amedrontaria

A dor de ser homem,

- Esse bicho estranho

Que desarrazoa

Muito presumido

De sua razão;

- Esse bicho estranho

Que se agita em vão;

Que tudo deseja

Sabendo que tudo

É o mesmo que nada;

- Esse bicho estranho

Que tortura os que ama;

Que ate mata estúpido,

Ao seu semelhante

No ilusivo intento

De fazer o bem!

Os anjos cantavam

Que o menino viera

Para redimir

O homem – essa absurda

Imagem de Deus!

Mas o jumentinho,

Tão manso e calado

Naquele inefável,

Divino momento,

Esse bem sabia

Que inútil seria

Todo o sofrimento

No Sinédrio, no horto,

Nos cravos da cruz;

Que seria inútil

O maior milagre;

Que inútil seria

Todo sacrifício...


1949

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