26 de dezembro de 2010

Noturno do Morro do Encanto

Este fundo de hotel é um fim de mundo!
Aqui é o silêncio que tem voz. O encanto
Que deu nome a este morro, põe no fundo
De cada coisa o seu cativo canto.

Ouço o tempo, segundo por segundo,
Urdir a lenta eternidade. enquanto
Fátima ao pó de estrelas sitibundo
Lança a misericórdia de seu manto.

Teu nome é uma lembrança tão antiga,
Que nem tem som nem cor, e eu, miserando,
Não sei mais como o ouvir, nem como o diga.

Falta a morte chegar... Ela me espia
Neste instante talvez, mal suspeitando
Que já morri quando o que eu fui morria.

Petrópolis, 21-2-1953

18 de dezembro de 2010

Visita

Fui procurar-te à última morada,
Não te encontrei. Apenas encontrei
Lousas brancas e pássaros cantando...
Teu espírito, longe, onde não sei,
Da obra na eternidade assegurada,
Sorri aos amigos, que estão te chorando.

Retrato

O sorriso escasso,
O riso-sorriso,
A risada nunca.
(Como quem consigo
Traz o sentimento
Do madrasto mundo.)

Com os braços colados
Ao longo do corpo,
Vai pela cidade
Grande e cafajeste,
Com o mesmo ar esquivo
Que escolheu nascendo
Na esquiva Itabira.

Aprendeu com ela
Os olhos metálicos
Com que vê as coisas:
Sem ódio, sem ênfase,
Às vezes com náusea.

Ferro de Itabira,
Em cujos recessos
Um vedor, um dia,
Um vedor - o neto -
Descobriu infante
As fundas nascentes,
O veio, o remanso
Da escusa ternura.

30 de novembro de 2010

Natal sem Sinos

No pátio a noite é sem silêncio.
E que é a noite sem silêncio?
A noite é sem silêncio e no entanto onde os sinos
Do meu Natal sem sinos?

Ah meninos sinos
De quando eu menino!

Sinos da Boa Vista e de Santo Antônio.
Sinos do Poço, do Monteiro e da Igrejinha de Boa Viagem.

Outros sinos
Sinos
Quantos sinos

No noturno pátio
Sem silêncio, ó sinos
Fe quando eu menino,
Bimbalhai meninos,
Pelos sinos (sinos
Que não ouço), os sinos de
Santa Luzia.

Rio, 1952

17 de novembro de 2010

Minha Gente, Salvemos Ouro Preto


As chuvas de verão ameaçaram derruir Ouro Preto.
Ouro Preto, a avozinha vacila.
Meus amigos, meus inimigos,
Salvemos Ouro Preto.

Bem sei que os monumentos veneráveis
Não correm perigo.
Mas Ouro Preto não é só o Palácio dos Governadores,
A Casa dos Contos,
A Casa da Câmara,
Os templos,
Os chafarizes,
Os nobres sobrados da Rua Direita.

Ouro Preto são também os casebres de taipa de sopapo
Agüentando-se uns aos outro ladeira abaixo,
O casario do Vira-Saia,
Que está vira-não-vira enxurro,
E é a isso que precisamos acudir urgentemente!

Meus amigos, meus inimigos,
Salvemos Ouro Preto.

Homens ricos do Brasil
Que dais quinhentos contos por um puro-sangue de corridas,
Está certo,
Mas dai dinheiro também para Ouro preto.

Grãs-finas cariocas e paulistas
Que pagais dez contos por um modelo de Christian Dior
e meio conto por uma permanente no Baldini,
está tudo muito centro,
Mas mandai também dez contos para consolidar umas quatro casinhas de Ouro Preto.
(Nossa Senhora do Carmo de Ouro Preto vos acrescentará...)

Gentes de minha terra!
Em Ouro Preto alvoreceu a nossa vontade de autonomia nos sonhos frustrados dos Inconfidentes.
Em Ouro Preto alvoreceu a nossa arte nas igrejas e esculturas de Aleijadinho.
Em Ouro Preto alvoreceu a nossa poesia nos versinhos do Desembargador.

Minha gente,
Salvemos Ouro Preto.
Meus amigos, meus inimigos,
Salvemos Ouro Preto.

14 de novembro de 2010

Saudação a Murilo Mendes

Murilo Mendes, Aníbal Machado, Jayme Ovalle, Manuel Bandeira e Augusto Frederico Schmidt no casamento de Ovalle.


Saudemos Murilo Medina Celi Monteiro Mendes que menino invadiu o céu na cola do cometa Halley.
Saudemos Murilo
Grande poeta
Conciliador de contrários
Incorporador do eterno ao contingente

Saudemos Murilo
Grande amigo da Poesia
Da poesia em Cristo
E em Lúcifer
Antes da queda

Saudemos Murilo
Grande amigo da Música
Especialmente grande amigo de Mozart
Que lhe apareceu um dia
Vestido de casaca azul

Saudemos Murilo
Grande amigo das Belas-Artes
Descobridor do falecido Cícero
(Hoje reencarnado num pintor abstracionista que vive em Paris onde o chamam Diás).

Saudemos Murilo
Para quem a amizade é também uma das Belas-Artes
Murilo grande amigo de seus amigos
Delicado fiel atento amigo de seus amigos

Saudemos Murilo
Grande marido dessa encantadora Maria da Saudade
Portuguesa e brasileira
Como seu nome
Invenção de dois poetas

Saudemos Murilo
Antitotalitarista antipassadista antiburocratista
Anti tudo que é pau ou que é pífio

Saudemos o grande poeta
Perenemente em pânico
E em flor.

9 de novembro de 2010

Discurso em Louvor da Aeromoça

Aeromoças, aeromoças,
Que pisais o chão
Com donaire novo,
Não pareceis baixar de céus atuais
Mas dos antigos,
Quando na Grécia dos deuses ainda vinham se misturar com os homens.

Píndaro gostaria de cantar o vosso quotidiano heroísmo,
tão simples, a vossa graça, a vossa bondade.

No entanto, nada mais moderno do que vós, ó sorrisos bonitos de chegada e partida nos aeroportos.
quem sem verdade e sem alma vos classificou de aeroviárias
A vós, autênticas aeronautas, irmãs intrépidas dos aviadores?

Em nome dos sonhos frustrados de Clícia Zorovich,
Em nome da vida frustrada de Clícia
Reinvidiquemos para vós a condição de tripulantes,
Ó flores da altura,
Insensíveis à vertigem e ao medo.

Santíssima Virgem Maria, mãe de Deus e advogada nossa,
Dai,
Dai um dia do vosso mês,
Cedei o último dia do vosso mês
Para que nele cantemos, louvemos, festejemos, agradeçamos
O quotidiano heroísmo, a graça, a bondade das aeromoças.

Alô, alô, Aerovias Brasil, Linha Aérea Transcontinental Brasileira, Linhas Aéreas Paulistas, Lóide Aéreo Nacional, Nacional Transportes Aéreos, Panair do Brasil, Real Sociedade Anônima de Transportes Aéreos, Serviços Aéreos Cruzeiro do Sul, Varig, Vasp, Viabrás:
Melhorai a condição da aeromoça!

Poeta Vinícius de Morais, Sunset Bolevard, 6.606, Los Angeles,
Vem agora comigo celebrar a aeromoça;

Poeta e futuro senador Augusto Frederico Schmidt,
escrevei no Correio da Manhã sobre a aeromoça,
Mandai flores da Gávea Pequena
Para a aeromoça.

Passageiros para São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Belém do Pará,
Pedi todos, A deus e aos homens,
Pela aeromoça.

4 de novembro de 2010

Uma Face na Escuridão
















Dinah, 1911 - 1982.




(Poema desentranhado de uma página em prosa de Dinah Silveira de Queiróz.)

A vida ia tomando forma e cor, rompia...
Eu estava tão presa a ti, que não sabia
Onde acabava eu e começava tu.
Mas ela mesma, a vida, a borbulhar selvagem
No uivo dos animais, no viço da folhagem
- Em tudo, no teu corpo e no meu corpo nu -

Ela mesma nos separou. As cordilheiras
Afundaram no oceano. As vozes derradeiras
Dos bichos que no abismo iam todos morrer,
Enchiam-me de assombro... E conheci na treva
A maior dor, a dor da força que me leva
Para longe de ti. Meu ser pelo teu ser

Clamou... Clamou debalde. Em mim subitamente
Tudo descorou, tudo envelheceu. Ao quente
Meu coração de outrora, hoje tarde reflui
Um sangue pobre em que já não palpita nada.
Como a planta sem ar, murchei. Branca e gelada,
Não sou mais do que uma lembrança do que fui.

Embora! Testemunharei eu só, aquela
Que trouxe a vida em si mais luminosa e bela
Do que nunca a sonhaste, a glória deste amor.
Terás em mim, a que foi tua, ora uma estranha,
A única face que te observa e te acompanha
Da funda escuridão cada dia maior...


2 de novembro de 2010

Poema Encontrado por Thiago de Mello no Itinerário de Pasárgada
















Venus luzia sobre nós tão grande,
Tão intensa, tão bela, que chegava
A parecer escandalosa, e dava
Vontade de morrer.

Vozes na Noite

Cloc cloc cloc...
Saparia no brejo?
Não, são os quatro cãezinhos policiais bebendo água.

O Grilo

- Grilo, toca aí um solo de flauta.
- De flauta? Você me acha com cara de flautista?
- A flauta é um belo instrumento, não gosta?
- Troppo dolce!

Elegia de Verão

O sol é grande. Ó coisas
Todas vãs, todas mudaves!
Como esse "mudaves",
Que hoje é "mudáveis",
E já não rima com "aves".)

O sol é grande. Zinem as cigarras
Em Laranjeiras.
Zinem as cigarras: zino, zino, zino...
Como se fossem as mesmas
Que eu ouvi menino.

Ó verões de antigamente!
Quando o Largo do Boticário
Ainda poderia ser tombado.
Carambolas ácidas, quentes de mormaço;
Água morna das caixas d'água vermelhas de ferrugem;
Saibro cintilante...

O sol é grande. Mas, ó cigarras que zinis,
Não sois as mesmas que eu ouvi menino.
Sois outras, não me interessais...

Dêem-me as cigarras que eu ouvi menino.

28 de outubro de 2010

Tema e Variações

Sonhei ter sonhado
Que havia sonhado.

Em sonho lembrei-me
De um sonho passado:
O de ter sonhado
Que estava sonhando.

Sonhei ter sonhado...
Ter sonhado o quê?
Que havia sonhado
Estar com você.
Estar? Ter estado,
Que é tempo passado.

Um sonho presente
Um dia sonhei.
Chorei de repente,
Pois vi, despertado,
Que tinha sonhado.

27 de outubro de 2010

Cotovia
















Alô, cotovia!
Aonde voaste,
Por onde andaste,
Que tantas saudades me deixaste?

- Andei por onde deu o vento,
Onde foi meu pensamento.
Em sítios que nunca me viste,
De um país que não existe...
Voltei, te trouxe a alegria.

- Muito contas, cotovia!
E que outras terras distantes
Visitaste? Dize ao triste.

- Líbia ardente, Cítia fria,
Europa, França, Bahia...

- E esqueceste Pernambuco,
Distraída?

- Voei ao Recife, no Cais
Pousei da Rua da Aurora.

- Aurora da minha vida,
Que os anos não trazem mais!

Os anos não, nem os dias,
Que isso cabe às cotovias.
Meu bico é bem pequenino
Para o bem que é deste mundo:
Se enche com uma gota d'água.
Mas sei torcer o destino,
Sei no espaço de um segundo
Limpar o pesar mais fundo.
Voei ao Recife, e dos longes
Das distâncias, aonde alcança
Só a asa da cotovia,
- Do mais remoto e perempto
Dos teus dias de criança
Te trouxe a extinta esperança,
Trouxe a perdida alegria.

25 de outubro de 2010

Boi Morto

Como em turvas águas de enchente,
Me sinto a meio submergido
Entre destroços do presente
Dividido, subdividido,
Onde rola, enorme, o boi morto,

Boi morto, boi morto, boi morto.

Árvores da paisagem calma,
Convosco - altas, tão marginais! -
Fica a alma, a atônita alma,
Atônita para jamais,
Que o corpo, esse vai com o boi morto,

Boi morto, boi morto, boi morto.

Boi morto, boi descomedido,
Boi espantosamente, boi
Morto, sem forma ou sentido
Ou significado. O que foi
Ninguém sabe. Agora é boi morto,

Boi morto, boi morto, boi morto.

24 de outubro de 2010

Infância

Corrida de ciclistas.
Só me lembro de um bambual debruçado no rio.
Três anos?
Foi em Petrópolis.

Procuro mais longe em minhas reminiscências.
Quem me dera recordar a teta negra de minh’ama-de-leite...
... meus olhos não conseguem romper os ruços definitivos do tempo.

Ainda em Petrópolis... um pátio de hotel... brinquedos pelo chão...

Depois a casa de São Paulo.
Miguel Guimarães, alegre, míope e mefistofélico,
Tirando reloginhos de plaquê da concha da minha orelha.
O urubu ousado no muro do quintal.
Fabrico uma trombeta de papel.
Comando...
O urubu obedece.
Fujo, aterrado do meu primeiro gesto de magia.

Depois... a praia de Santos...
Corridas em círculos riscados na areia...
Outra vez Miguel Guimarães, juiz de chegada, com seus presentinhos.

A tatazana enorme apanhada na ratoeira.
Outro bambual...
O que inspirou a meu irmão o seu único poema:

"Eu ia por um caminho,
Encontrei um maracatu.
O qual vinha direitinho
Pelas flechas de um bambu."

As marés de equinócio.
O jardim submerso...
Meu tio Cláudio erguendo do chão uma ponta de mastro destroçado.

Poesia dos naufrágios!

Depois Petrópolis novamente.
Eu, junto do tanque, de linha amarrada no incisivo de leite, sem coragem de puxar.

Véspera de Natal... Os chinelinhos atrás da porta...
E a manhã seguinte, na cama, deslumbrado com os brinquedinhos trazidos pela fada.

E a chácara da Gávea?
E a casa da Rua Don’aAna?

Boy, o primeiro cachorro.
Não haveria outro nome depois
(Em casa até as cadelas se chamavam Boy).

Medo de gatunos...
Para mim eram homens com cara de pau.

A volta a Pernambuco!
Descoberta dos casarões de telha-vã.
Meu avô materno - um santo...
Minha avó batalhadora.

A casa da Rua da União.
O pátio - núcleo de poesia.
O banheiro - núcleo de poesia.
O cambrone - núcleo de poesia (‘La fraicheur des latrines!’).

A alcova de musica - núcleo de mistério.
Tapetinhos de pele de animais.
Ninguém nunca ia lá... Silêncio... Obscuridade...
O piano de armário, teclas amarelecidas, cordas desafinadas.

Descoberta da rua!
Os vendedores a domicílio.
Ai mundo dos papagaios de papel, dos piões, da amarelinha!

Uma noite a menina me tirou da roda de coelho-sai, me levou, imperiosa e ofegante, para um desvão da casa de dona Aninha Viegas, levantou a sainha e disse mete.

Depois meu avô... Descoberta da morte!

Com dez anos vim para o Rio.
Conhecia a vida em suas verdades essenciais.
Estava maduro para o sofrimento
E para a poesia.

Flor de Todos os Tempos

Dantes a tua pele sem rugas,
a tua saúde
Escondiam o que era
Tu mesma.

Aquela que balbuciava
Quase inconscientemente:
"Podem entrar."

A que me apertava os dedos
Desesperadamente
Com medo de morrer.

A menina.
O anjo.
A flor de todos os tempos.
A que não morrerá nunca.

11 de outubro de 2010

As Três Marias

Atrás destas moitas,

Nos troncos, no chão,

Vi, traçado a sangue,

O signo-salmão!


Há larvas, há lêmures.

Atrás destas moitas.

Mulas-sem-cabeça,

Visagens afoitas.


Atrás destas moitas

Veio a Moura-Torta

Comer as mãozinhas

Da menina morta!


Há bruxas luéticas

Atrás destas moitas,

Segredando a aragem

Amorosas coitas.


Atrás destas moitas

Vi um rio de fundas

Águas deletérias,

Paradas, imundas!


Atrás destas moitas...

- Que importa? Irei vê-las?

Regiões mais sombrias

Conheço. Sou poeta,

Dentro d’alma levo,

Levo três estrelas,

Levo as Três Marias!


Petrópolis, 2 de janeiro de 1950

2 de outubro de 2010

Arte de Amar

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.

A alma é que estraga o amor.

Só em Deus ela pode encontrar satisfação.

Não noutra alma.

Só em Deus – ou fora do mundo.


As almas são incomunicáveis.

Deixa teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

28 de setembro de 2010

O Habitante de Pasárgada - Manuel Bandeira

Unidade

Minh’alma estava naquele instante

Fora de mim longe muito longe


Chegaste

E desde logo foi verão

O verão com suas palmas os seus mormaços os seus ventos de sôfrega mocidade

Debalde os teus afagos insinuavam quebranto e molície

O instinto da penetração já despertado

Era como uma seta de fogo


Foi então que minh’alma veio vindo

Veio vindo de muito longe

Veio vindo

Para de súbito entrar-me violenta e sacudir-me todo

No momento fugaz da unidade.


1948

26 de setembro de 2010

Nova Poética

Vou lançar a teoria do poeta sórdido.

Poeta sórdido:

Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.

Vai um sujeito,

Sai um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem engomada, e na primeira esquina passa um caminhão, salpica-lhe o paletó ou a calça de uma nódoa de lama:

É a vida.


O poema deve ser como a nódoa no brim:

Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.


Sei que a poesia é também orvalho.

Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento e as amadas que envelhecem sem maldade.


19 de maio de 1949


Presepe

Chorava o menino.

Para a mãe, coitada,

Jesus pequenito,

De qualquer maneira

(Mães o sabem...), era

Das entranhas dela

O fruto bendito.

José seu marido,

Ah esse aceitava,

Carpinteiro simples,

O que Deus mandava.

Conhecia o filho

A que vinha neste

Mundo tão bonito,

Tão mal habitado?

Não que ele temesse

O humano flagício:

O fel e o vinagre,

Escárnios, açoites,

O lenho nos ombros,

A lança na ilharga,

A morte na cruz.

Mais do que tudo isso

O amedrontaria

A dor de ser homem,

- Esse bicho estranho

Que desarrazoa

Muito presumido

De sua razão;

- Esse bicho estranho

Que se agita em vão;

Que tudo deseja

Sabendo que tudo

É o mesmo que nada;

- Esse bicho estranho

Que tortura os que ama;

Que ate mata estúpido,

Ao seu semelhante

No ilusivo intento

De fazer o bem!

Os anjos cantavam

Que o menino viera

Para redimir

O homem – essa absurda

Imagem de Deus!

Mas o jumentinho,

Tão manso e calado

Naquele inefável,

Divino momento,

Esse bem sabia

Que inútil seria

Todo o sofrimento

No Sinédrio, no horto,

Nos cravos da cruz;

Que seria inútil

O maior milagre;

Que inútil seria

Todo sacrifício...


1949

O Rio

Ser como um rio que deflui

Silencioso dentro da noite.

Não temer as trevas da noite.

Se há estrelas nos céus, refleti-las.

E se os céus se pejam de nuvens,

Como o rio as nuvens são água,

Refleti-las também sem mágoa

Nas profundidades tranqüilas.


Petrópolis, 1948


Jose Cláudio

Da outra vida,

Moreno,

Olha-me de face,

Com o bonito sorriso Pontual

Adoçado pela bondade do nosso avô Costa Ribeiro.

Olha-me de face,

Bem de face,

Com os olhos leais,

Moreno.


Conta-me o que tens visto,

Que músicas ouves agora.

Lembra-te ainda do cheiro dos bangüês de Pernambuco?

Das tuas correrias de menino pelos descampados da Gávea?

Lembras-te ainda da ponte que construíste sobre o Paraguai?

Do pastoril do Cícero?

Lembras-te ainda das pescarias de Cabo Frio?

(Elas te deram não sei que ar salino e veleiro,

Moreno.)


O espanto que nos deixaste!

Como fizeste crescer em nós o mistério augusto da morte!


Todavia,

Não te lamento não:

A vida,

Esta vida,

Carlos já disse,

Não presta.

Mas o vazio de quem

Eras marido e filho?

- Filho único, Moreno.


20 de setembro de 2010

Visita Noturna

Bateram à minha porta,

Fui abrir, não vi ninguém.

Seria a alma da morta?


Não vi ninguém, mas alguém

Entrou no quarto deserto

E o quarto logo mudou.

Deitei-me na cama, e perto

Da cama alguém se sentou.


Seria a sombra da morta?

Que morta? A inocência? A infância?

O que concebido, abortou,

O ou que foi e hoje é só distância?


Pois bendita a que voltou!

Três vezes bendita a morta,

Quem quer que ela seja, a morta

Que bateu a minha porta.


Rio, dezembro de 1947

O Bicho

Vi ontem um bicho

Na imundície do pátio

Catando comida entre os detritos.


Quando achava alguma coisa,

Não examinava nem cheirava:

Engolia com voracidade.


O bicho não era um cão,

Não era um gato,

Não era um rato.


O bicho, meu Deus, era um homem.


Rio, 27 de dezembro de 1947

28 de agosto de 2010

Minha Terra

Saí menino de minha terra.

Passei trinta anos longe dela.

De vez em quando me diziam:

Sua terra está completamente mudada,

Tem avenidas, arranha-céus...

É hoje uma bonita cidade!


Meu coração ficava pequenino.


Revi afinal o meu Recife.

Está de fato completamente mudado.

Tem avenidas, arranha-céus.

É hoje uma bonita cidade.


Diabo leve quem pôs bonita a minha terra!

13 de agosto de 2010

Resposta a Vinicius

Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, Manuel Bandeira, Mario Quintana e Paulo Mendes Campos na casa do cronista Rubem Braga (1966).

Poeta sou; pai, pouco; irmão, mais.
Lúcido, sim; eleito, não.
E bem triste de tantos ais
Que me enchem a imaginação.

Com que sonho? Não sei bem não.
Talvez com me bastar, feliz
- Ah feliz como jamais fui! -,
Arrancando do coração
- Arrancando pela raiz -
Este anseio infinito e vão
De possuir o que me possui.

Céu

A criança olha
Para o céu azul.
Levanta a mãozinha,
Quer tocar o céu.

Não sente a criança
Que o céu é ilusão:
Crê que o não alcança,
Quando o tem na mão.

10 de agosto de 2010

Poema para Santa Rosa

Pousa na minha a tua mão, protonotária.
O alexandrino, ainda que sem a cesura mediana, aborrece-me.
Depois, eu mesmo já escrevi: Pousa a mão na minha testa.
E Raimundo Correia: “Pousa aqui, pousa ali, etc.”
É pouso demais. Basta Pouso Alto.
Tão distante e tão presente. Como uma reminiscência da infância.
Pousa na minha a tua mão, protonotária.
Gosto de “protonotária”.
Me lembra meu pai.
E pinta bem a quem eu quero.
Sei que ela vai perguntar: - O que é protonotária?
Responderei:
- Protonotária é o dignitário da Cúria Romana que expede, nas grandes causas, os atos que os simples notários apostólicos expedem nas pequenas.
E ela: - Será o Benedito?
- Meu bem, minha ternura é um fato, mas não gosta de se mostrar:
É dentuça e dissimulada.
Santa Rosa me compreende.

Pousa na minha a tua mão, protonotária.

1 de agosto de 2010

A Realidade e a Imagem

O arranha-céu sobe no ar puro lavado pela chuva
E desce refletido na poça de lama do pátio.
Entre a realidade e a imagem, no chão seco que as separa,
Quatro pombas passeiam.

Neologismo

Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento palavras
Que traduzem a ternura mais funda
E mais cotidiana.
Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo:
Teadoro, Teodora.

Petrópolis, 25 de fevereiro de 1947

Belo Belo

Belo belo minha bela
Tenho tudo que não quero
Não tenho nada que quero
Não quero óculos nem tosse
Nem obrigação de voto
Quero quero
Quero a solidão dos píncaros
A água da fonte escondida
A rosa que floresceu
Sobre a escarpa inaccessível
A luz da primeira estrela
Piscando no lusco-fusco
Quero quero
Quero dar a volta ao mundo
Só num navio de vela
Quero rever Pernambuco
Quero ver Bagdá e Cusco
Quero quero
Quero o moreno de Estela
Quero a brancura de Elisa
Quero a saliva de Bela
Quero as sardas de Adalgisa
Quero quero tanta coisa
Belo belo
Mas basta de lero-lero
Vida noves fora zero.

Petrópolis, fevereiro de 1947

31 de julho de 2010

Esparsa Triste


Jayme de Aragon y Ovalle
(5 agosto 1894 ~ 9 setembro 1955)


Jaime Ovalle, poeta, homem triste,
Faz treze anos que tu partiste
Para Londres imensa e triste.
Ias triste: voltaste mais triste.

Ora partes de novo. Existe
Um motivo a que não resiste
Tua tristeza, poeta, homem triste?
Queira Deus não voltes mais triste...

13 de janeiro de 1946

26 de julho de 2010

O Lutador

Buscou no amor o bálsamo da vida,
Não encontrou senão veneno e morte.
Levantou no deserto a roca-forte
Do egoísmo, e a roca em mar foi submergida!

Depois de muita pena e muita lida,
De espantos caçar de toda sorte,
Venceu o monstro de desmedido porte
- A ululante Quimera espavorida!

Quando morreu, línguas de sangue ardente,
Aleluias de fogo acometiam,
Tomavam todo o céu de lado a lado,

E longamente, indefinidamente,
Como um coro de ventos sacudiam
Seu grande coração transverberado!

30 de setembro – 1 de outubro de 1945

25 de julho de 2010

A Mario de Andrade Ausente

(9 outubro 1893 - 25 fevereiro 1945)

Anunciaram que você morreu.
Meus olhos, meus ouvidos testemunharam:
A alma profunda, não.
Por isso não sinto agora a sua falta.

Sei bem que ela virá
(Pela força persuasiva do tempo).
Vira súbito um dia,
Inadvertida para os demais. 
Por exemplo assim:
À mesa conversarão de uma coisa e outra,
Uma palavra lançada à toa
Baterá na franja dos lutos de sangue,
Alguém perguntará em que estou pensando,
Sorrirei sem dizer que em você
Profundamente.

Mas agora não sinto a sua falta.

(É sempre assim quando o ausente
Partiu sem se despedir:
Você não se despediu.)

Você não morreu: ausentou-se.
Direi: Faz tempo que ele não escreve.
Irei a São Paulo: você não virá ao meu hotel.
Imaginarei: Está na chacrinha de São Roque.
Saberei que não, você ausentou-se. Para outra vida?
A vida é uma sô. A sua continua
Na vida que você viveu.
Por isso não sinto agora a sua falta.

22 de julho de 2010

No Vosso E Em Meu Coração

Espanha no coração:
No coração de Neruda,
No vosso e em meu coração.
Espanha da liberdade,
Não a Espanha da opressão.
Espanha republicana:
A Espanha de Franco, não!
Velha Espanha de Pelaio,
Do Cid, do Grã-Capitão!
Espanha de honra e verdade,
Não a Espanha da traição!
Espanha de Dom Rodrigo,
Não a do Conde Julião!
Espanha republicana:
A Espanha de Franco, não!
Espanha dos grandes místicos,
Dos santos poetas, de João
Da Cruz, de Teresa de Ávila
E de Frei Luis de Leão!
Espanha da livre crença,
Jamais a da Inquisição!
Espanha de Lope e Góngora,
De Góia e Cervantes, não
A de Felipe Segundo
Nem Fernando, o balandrão!
Espanha que se batia
Contra o corso Napoleão!
Espanha da liberdade:
A Espanha de Franco, não!
Espanha republicana,
Noiva da revolução!
Espanha atual de Picasso,
De Casals, de Lorca, irmão
Assassinado em Granada!
Espanha no coração
De Pablo Neruda, Espanha
No vosso e em meu coração.

Tempo-Será

A eternidade está longe
(Menos longe que o estirão
que existe entre meu desejo.
E a palma da minha mão).

Um dia serei feliz?
Sim, mas não há de ser já:
A Eternidade está longe,
Brinca de tempo-será.

28 de maio de 2010

Aos Navegantes, um aviso

A publicação dos poemas de Manuel Bandeira está suspensa por motivo de viagem.
Uma viagem física, não metafísica.
Até meados de julho estou no Brasil e o livro "Estrela da Vida Inteira - Poesias Reunidas" está no Japão. Esqueci de trazê-lo.
Amaldiçoem-me, praguejem, crucifiquem-me, mas não deixem de ler Manuel Bandeira e nem qualquer outro poeta.
Então tá, julho a gente volta com mais inéditas.

16 de maio de 2010

Letra para uma Valsa Romântica

A tarde agoniza
Ao santo acalanto
Da noturna brisa.
E eu, que também morro,
Morro sem consolo,
Se não vens, Elisa!

Ai nem te humaniza
O pranto que tanto
Nas faces desliza
Do amante que pede
Suplicantemente
Teu amor, Elisa!

Ri, desdenha, pisa!
Meu canto, no entanto,
Mais te diviniza,
Mulher diferente,
Tão indiferente,
Desumana Elisa!

13 de maio de 2010

O Homem e a Morte

Romance desentranhado de “Um retrato da morte” de Fidelino de Figueiredo.

O homem já estava deitado
Dentro da noite sem cor.
Ia adormecendo, e nisto
À porta um golpe soou.
Não era pancada forte.
Contudo, ele se assustou,
Pois nela uma qualquer coisa
De pressago adivinhou.
Levantou-se e junto à porta
- quem bate? Ele perguntou
- Sou eu, alguém lhe responde.
- Eu quem? torna. – A Morte sou.
Um vulto que bem sabia
Pela mente lhe passou:
Esqueleto armado de foice
Que a mãe lhe um dia levou.
Guardou-se de abrir a porta,
Antes ao leito voltou,
E nele os membros gelados
Cobriu, hirto de pavor.
Mas a porta, manso, manso,
Se foi abrindo e deixou
Ver – uma mulher ou anjo?
Figura toda banhada
De suave luz interior.
A luz de quem nesta vida
Tudo viu, tudo perdoou.
Olhar inefável como
De quem ao peito o criou
Sorriso igual ao da amada
Que amara com mais amor.
- Tu és a Morte? Pergunta.
E o Anjo torna: - A Morte sou!
Venho trazer-te descanso
Do viver que te humilhou.
- Imaginava-te feia,
Pensava em ti com terror...
És mesmo a Morte? ele insiste.
- Sim, torna o Anjo, a Morte sou,
Mestra que jamais engana,
A tua amiga melhor.
E o Anjo foi-se aproximando,
A fronte do homem tocou,
Com infinita doçura
As magras mãos lhe compôs.
Depois com o maior carinho
Os dois olhos lhe cerrou...
Era o carinho inefável
De quem ao peito o criou.
Era a doçura da amada
Que amara com mais amor.

7 de dezembro de 1945

11 de maio de 2010

Improviso

Cecília Meireles



Cecília, és libérrima e exata
Como a concha,
Mas a concha é excessiva matéria,
E a matéria mata.

Cecília, és tão forte e tão frágil
Como a onda ao termo da luta,
Mas a onda é água que afoga:
Tu, não, és enxuta.

Cecília, és, como o ar,
Diáfana, diáfana,
Mas o ar tem limites:
Tu, quem te pode limitar?

Definição:
Concha, mas de orelha;
Água, mas de lagrimas;
Ar com sentimento.
- Brisa, viração
Da asa de uma abelha.

7 de outubro de 1945

17 de abril de 2010

Sextilhas Românticas

Paisagem da minha terra,
Onde o rouxinol não canta
- Mas que importa o rouxinol?
Frio, nevoeiro da serra
Quando na manhã se levanta
Toda banhada de sol!

Sou romântico? Concedo.
Exibo, sem evasiva,
A alma ruim que Deus me deu.
Decorei "Amor e medo",
"No lar", "Meus oito anos"... Viva
José Casimiro Abreu!

Sou assim por vício inato.
Ainda hoje gosto de Diva,
Nem não posso renegar
Peri, tão pouco índio, é fato,
Mas tão brasileiro... Viva,
Viva José de Alencar!

Paisagens da minha terra,
Onde o rouxinol não canta
- Pinhões para o rouxinol!
Frio, nevoeiros da serra
Quando a manhã se levanta
Toda banhada de sol!

Ai tantas lembranças boas!
Massangana de Nabuco!
Muribara de meus pais!
Lagoas das Alagoas,
Rios do meu Pernambuco,
Campos de Minas Gerais!

17 de março de 1945

Canto de Natal

O nosso menino
Nasceu em Belém.
Nasceu tão somente
Para querer bem.

Nasceu sobre as palhas
O nosso menino.
Mas a mãe sabia
Que ele era divino.

Vem para sofrer
A morte na cruz,
O nosso menino.
Seu nome é Jesus.

Por nós ele aceita
O humano destino:
Louvemos a glória
De Jesus menino.

Tema e Voltas

Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se nos céus há o lento
Deslizar da noite?

Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se lá fora o vento
É um canto na noite?

Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se agora, ao relento,
Cheira a flor da noite?

Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se o meu pensamento
É livre na noite?

Escusa

Eurico Alves (1909 - 1974)

Eurico Alves, poeta baiano,
Salpicado de orvalho, leite cru e tenro cocô de cabrito,
Sinto muito, mas não posso ir a Feira de Sant'Ana.
Sou poeta da cidade,
Meus pulmões viraram máquinas inumanas e aprenderam a respirar o gás carbônico das salas de cinema.

Como o pão que o diabo amassou,
Bebo leite de lata.
Falo com A., que é ladrão.
Aperto a mão de B., que é assassino.
Há anos que não vejo romper o sol, que não lavo os olhos nas cores das madrugadas.

Eurico Alves, poeta baiano,
Não sou mais digno de respirar o ar puro dos currais da roça.

15 de abril de 2010

Poema só para Jaime Ovalle

Quando hoje acordei, ainda fazia escuro
(Embora a manhã já estivesse avançada).
Chovia.
Chovia uma triste chuva de resignação
Como contrastes e consolo ao calor tempestuoso da noite.
Então me levantei,
Bebi o café que eu mesmo preparei,
Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando...
- Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.

13 de abril de 2010

Brisa

Vamos viver no Nordeste, Anarina.
Deixarei aqui meus amigos, meus livros, minhas riquezas, minha vergonha.
Deixarás aqui tua filha, tua avó, teu marido, teu amante.
Aqui faz muito calor.
No Nordeste faz calor também.
Mas lá tem brisa:
Vamos viver de brisa, Anarina.

BELO BELO


Carta de Brasão

Escudo vermelho, nele uma Bandeira
Quadrada de ouro,
E nele um leão rompente
Azul, armado.
Língua, dentes e unhas de vermelho.
E a haste da Bandeira de ouro.
E a bandeira com um filete de prata
Em quadra.
Paquife de prata e azul.
Elmo de prata cerrado
Guarnecido de ouro.
E a mesma bandeira por timbre.

Esta é a minha carta de brasão.
Por isso teu nome
Não chamarei mais Rosa, Teresa ou Esmeralda:
Teu nome chamarei agora
Candelária.

22 de junho de 1943

12 de abril de 2010

Velha Chácara

A casa era por aqui...
Onde? Procuro-a e não acho.
Ouço uma voz que esqueci:
É a voz deste mesmo riacho.

Ah quanto tempo passou!
(Foram mais de cinqüenta anos.)
Tantos que a morte levou!
(E a vida... nos desenganos...)

A usura fez tábua rasa
Da velha chácara triste:
Não existe mais a casa...
- Mas o menino ainda existe.

1944

11 de abril de 2010

A Alphonsus de Guimarães Filho


Scorn not the sonnet, disse o inglês. Ouviste
O conselho do poeta e um dia, quando
Mais o espinho pungiu da ausência triste,
O primeiro soneto abriu cantando.

Musa do verso livre, hoje ela insiste
Na imortal forma, da paterna herdando.
Todos em louvor dessa que ora assiste
Em teu lar, dois destinos misturando.

No molde exíguo, onde infinita a mágoa
Humana vem caber, como o universo
A refletir-se numa gota d’água,

Disseste o mal da ausência. E ais e saudades
E vigílias e castas soledades
Choram lágrimas novas no teu verso.

Petrópolis, 5 de janeiro de 1944

10 de abril de 2010

Eu Vi Uma Rosa

Eu vi uma rosa
- Uma rosa branca –
Sozinha no galho.
No galho? Sozinha
No jardim, na rua.

Sozinha no mundo.

Em torno, no entanto,
Ao sol de mei-dia,
Toda a natureza
Em formas e cores
E sons esplendia.

Tu isso era excesso.

A graça essencial,
Mistério inefável
- Sobrenatural –
Da vida e do mundo,
Estava ali na rosa
Sozinha no galho.

Sozinha no tempo.

Tão pura e modesta,
Tão perto do chão,
Tão longe na gloria
Da mística altura,
Dir-se-ia que ouvisse
Do arcanjo invisível
As palavras santas
De outra Anunciação.

Petrópolis, 1943

Peregrinação

O córrego é o mesmo,
Mesma, aquela arvore,
A casa, o jardim.
Meus passos a esmo
(Os passos e o espírito)
Vão pelo passado,
Ai tão devastado,
Recolhendo triste
Tudo quanto existe
Ainda ali de mim
- Mim daqueles tempos!

Petrópolis, 12 de março de 1943

Pardalzinho

O pardalzinho nasceu
Livre. Quebraram-lhe a asa.
Sacha lhe deu uma casa,
Água, comida e carinhos.
Foram cuidados em vão:
A casa era uma prisão,
O pardalzinho morreu.
O corpo sacha enterrou
No jardim; a alma, essa voou
Para o céu dos passarinhos!

Petrópolis, 10 de março de 1943

Balada do Rei das Sereias

O rei atirou
Seu anel ao mar
E disse às sereias:
- Ide-o lá buscar,
Que se o não trouxerdes,
Virareis espuma
Das ondas do mar!

Foram as sereias,
Não tardou, voltaram
Com o perdido anel.
Maldito o capricho
De rei tão cruel.

O rei atirou
Grãos de arroz ao mar
E disse às sereias:
- Ide-o lá buscar,
Que se o não trouxerdes,
Virareis espuma
Das ondas do mar!

Foram as sereias,
Não tardou voltaram,
Não faltava um grão.
Maldito o capricho
Do mau coração!

O rei atirou
Sua filha ao mar
E disse às sereias:
- Ide-o lá buscar,
Que se o não trouxerdes,
Virareis espuma
Das ondas do mar!

Foram as sereias...
Quem as viu voltar?...
Não voltaram nunca!
Viraram espuma
Das ondas do mar.

Petrópolis, 25 de março de 1943

Piscina

Que silêncio enorme!
Na piscina verde
Gorgoleja trepida
A água da carranca.

Só a lua se banha
- Lua gorda e branca –
Na piscina verde.
Como a lua é branca!

Corre um arrepio
Silenciosamente
Na piscina verde:
Lua ela não quer.

Ah o que ela quer
A piscina verde
É o corpo queimado
De certa mulher
Que jamais se banha
Na espadana branca
Da água da carranca.

Petrópolis, 25 de março de 1943

9 de abril de 2010

Ubiqüidade

Estás em tudo que penso,
Estás em quanto imagino:
Estás no horizonte imenso,
Estás no grão pequenino.

Estás n ovelha que pasce,
Estás no rio que corre:
Estás em tudo que nasce,
Estás em tudo que morre.

Em tudo estás, nem repousas,
O ser tão mesmo e diverso!
(Eras no inicio das cousas,
Serás no fim do universo.)

Estás na alma e nos sentidos.
Estás no espírito, estás
Na letra, e, os tempos cumpridos,
No céu, no céu estarás.

Petrópolis, 11 de março de 1943

Gazal em Louvor de Hafiz

Escuta o gazal que fiz,
Darling, em louvor de Hafiz:

- Poeta de Chiraz, teu verso
Tuas magoas e as minhas diz.

Pois no mistério do mundo
Também me sinta infeliz.

Falaste: “Amarei constante
Aquela que não me quis.”

E as filhas de Samarcanda,
Cameleiros e sufis

Ainda repetem os cantos
Em que choras e sorris.

As bem amadas ingratas,
São pó; tu, vives, Hafiz!

Petrópolis, 1943

8 de abril de 2010

Testamento

O que não tenho e desejo
Eh que melhor me enriquece.
Tive uns dinheiros – perdi-os...
Tive amores – esqueci-os.
Mas no maior desespero
Rezei: ganhei essa prece.

Vi terras da minha terra,
Por outras terras andei.
Mas o que ficou marcado
No meu olhar fatigado,
Foram terras que inventei.

Gosto muito de criancas:
Não tive um filho de meu.
Um filho!... Não foi de jeito...
Mas trago dentro do peito
Meu filho que não nasceu.

Criou-me desde eu menino,
Para arquiteto, meu pai.
Foi-se um dia a saúde...
Fiz arquiteto? Não pude!
Sou poeta menor, perdoai!

Não faço versos de guerra.
Não faço porque não sei.
Mas num torpedo-suicida
Darei de bom grado a vida
Na luta em qu não lutei!

25 de janeiro de 1943
Dica de Louis Alien: Eduardo Tornaghi recitando Bandeira.

4 de abril de 2010

Manuel Bandeira em áudio





Todos os discos acima estão catalogados no MIS (Museu da Imagem e do Som) e no Centro Cultural Vergueiro, em São Paulo.

Clique aqui para download de audiobook com poemas de Bandeira e Drummond.


Acalanto de John Talbot

Dorme, meu filhinho,
Dorme sossegado.
Dorme que a teu lado
Cantarei baixinho.
O dia não tarda...
Vai amanhecer:
Como é frio o ar!
O anjinho da guarda
Que o Senhor te deu,
Pode adormecer,
Pode descansar,
Que te guardo eu.

8 de agosto de 1942

Belo Belo

Belo belo belo
Tenho tudo quanto quero,

Tenho o fogo de constelações extintas há milênios,
E o risco brevíssimo – que foi? Passou! – de tantas estrelas cadentes.

A aurora apaga-se,
E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora.

O dia vem, o dia adentro
Continuo a possuir o segredo grande da noite.

Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.

Não quero o êxtase nem os tormentos,
Não quero o que a terra só da com trabalho.

As dádivas dos anjos são inaproveitáveis:
Os anjos não compreendem os homens.

Não quero amar,
Não quero ser amado.
Não quero combater,
Não quero ser soldado.

- Quero a delicia de poder sentir as coisas mais simples.

29 de março de 2010

Ultima Canção do Beco

Beco que cantei num dístico
Cheio de elipses mentais,
Beco das minhas tristezas,
Das minhas perplexidades
(Mas também dos meus amores,
Dos meus beijos, dos meus sonhos),
Adeus para nunca mais!

Vão demolir esta casa.
Mas meu quarto vai ficar
Não como forma imperfeita
Neste mundo de aparências:
Vai ficar na eternidade,
Com seus livros, seus quadros,
Intacto, suspenso no ar!

Beco de sarças de fogo,
De paixões sem amanhas,
Quanta luz mediterrânea
No esplendor da adolescência
Não recolheu nestas pedras
O orvalho das madrugadas,
A pureza das manhas!

Beco das minhas tristezas.
Não me envergonhei de ti!
Foste rua de mulheres?
Todas são filhas de Deus!
Dantes foram carmelitas...
E eras só de pobre quando,
Pobre, vim morar aqui.

Lapa – Lapa do Desterro -,
Lapa que tanto pecais!
(Mas quando bate seis horas,
Na primeira voz dos sinos,
Como na voz que anunciava
A conceição de Maria,
Que graças angelicais!)

Nossa Senhora do Carmo,
De lá de cima do altar,
Pede esmola para os pobres,
- Para mulheres tão tristes,
Para mulheres tão negras,
Que vem na porta do templo
De noite se agasalhar.

Beco que nasceste a sombra
De paredes conventuais,
És como a vida, que é santa
Pesar de todas as quedas
Por isso te amei constante
E canto para dizer-te
Adeus para nunca mais!

25 de marco de 1942

Soneto Plagiado de Augusto Frederico Schmidt

E de súbito n’alma incompreendida
Esta magoa, esta pena, esta agonia;
Nos olhos ressequidos a sombria
Fonte de pranto, quente e irreprimida.

No espírito deserto a impressentida
Misteriosa presença que não via;
A consciência do mal que não sabia,
Aparecida, desaparecida...

Ate bem pouco, era uma imagem baça.
Agora, neste instante de certeza,
Surgindo claro, como nunca o vi!

E nesse olhar tocado pela graça
Do céu, não sei que angélica pureza
- Pureza que não tenho, que perdi.

27 de março de 2010

Soneto em Louvor de Augusto Frederico Schimdt

Nos teus poemas de cadencia bíblicas
Recolheste os sons das coisas mais efêmeras:
O vento que enternece as praias desertas,
O desfolhar das rosas cansadas de viver.

As vozes mais longínquas da infância,
Os risos emudecidos das amadas mortas:
Matilde, Esmeralda, a misteriosa Luciana,
E Josefina, complicado ser que é mulher e é também o Brasil.

A tudo que é transitório soubeste
Dar, com a tua grave melancolia,
A densidade do eterno.

Mais de uma vez fizeste aos homens advertências terríveis.
Mas tua gloria maior é ser aquele
Que soube falar a Deus nos ritmos de suas palavras.

10 de setembro de 1940

Rondó do Capitão

Bão balalão,
Senhor capitão,
Tirai este peso
Do meu coração.
Não é de tristeza
Não é de aflição:
É só esperança,
Senhor capitão!
A leve esperança,
Senhor capitão!
A leve esperança,
A aérea esperança...
Aérea, pois não!
- Peso mais pesado
Não existe não.
Ah, livrai-me dele,
Senhor capitão!

8 de outubro de 1940

Dedicatória

Estou triste estou triste
Estou desinfeliz
Ó maninha ó maninha

Ó maninha te ofereço
Com muita vergonha
Um presente de pobre
Estes versos que fiz
Ó maninha ó maninha.

9 de março de 2010

Canção de Muitas Marias

Uma, duas, três Marias,
Tira o pé da noite escura.
Se uma Maria é demais,
Duas, três, o que não seria?

Uma é Maria da Graça,
Outra é Maria Adelaide:
Uma tem o pai pau-d’água,
Outra tem o pai alcaide.

A terceira é tão distante,
Que só vendo por binóculo.
Essa é a Maria das Neves,
Que chora e sofre do fígado.

Há mais Marias na terra.
Tantas que é um não acabar,
- Mais que as estrelas do céu,
Mais que as folhas na floresta,
Mais que as areias no mar!

Por uma saltei de vara,
Por outra estudei tupi.
Mas a melhor das Marias
Foi aquela que eu perdi.

Essa foi a Maria Cândida,
(Mária digam por favor),
Minha Maria enfermeira,
Tão forte e morreu de gripe,
Tão pura e não teve sorte,
Maria do meu amor.

E depois dessa Maria,
Que foi cândida no nome,
Cândida no coração;
Que em vida foi a das Dores,
E hoje é Maria do Céu.:
Não cantarei mais nenhuma,
Que a minha lira estalou,
Que a minha lira morreu!