27 de setembro de 2009

Maçã

Por um lado te vejo como um seio murcho
Pelo outro como um ventre de cujo umbigo pende ainda o cordão placentário
És vermelha como o amor divino.

Dentro de ti em pequenas pevides
Palpita a vida prodigiosa
Infinitamente

E quedas tão simples
Ao lado de um talher
Num quarto pobre de hotel.

Petrópolis, 25-2-1938

Haicai tirado de Uma Falsa Lira de Gonzaga

Quis gravar “Amor”
No tronco de um velho freixo:
“Marilia” escrevi.

O Exemplo das Rosas

Uma mulher queixava-se do silencio do amante:
- Já não gostas de mim, pois não encontras palavras para me louvar!
Então ele, apontando-lhe a rosa que lhe morria no seio:
- Não será insensato pedir a esta rosa que fale?
Não vês que ela se da toda no seu perfume?

O Martelo

As rodas rangem na curva dos trilhos
Inexoravelmente.
Mas eu salvei do meu naufrágio
Os elementos mais cotidianos.
O meu quarto resume o passado em todas as casas que habitei.

Dentro da noite
No cerne duro da cidade
Me sinto protegido.
Do jardim do convento
Vem o pio da coruja.
Doce como arrulho de pomba.
Sei que amanhã quando acordar
Ouvirei o martelo do ferreiro
Bater corajoso o seu cântico de certezas.

20 de setembro de 2009

Poema Desentranhado de uma Prosa de Augusto Frederico Schmidt

A luz de tua poesia é triste mas pura.
A solidão é o grande sinal do teu destino.
O pitoresco, as cores vivas, o mistério e calor dos outros seres te interessam realmente
Mas tu estás apartado de tudo isso, porque vives na companhia dos teus desaparecidos,
Dos que brincaram e cantaram um dia a luz das fogueiras de São João
E hoje estão para sempre dormindo profundamente.
Da poesia feita como quem ama e quem morre
Caminhaste para uma poesia de quem vive e recebe a tristeza
Naturalmente
- Como e céu escuro recebe a companhia das primeiras estrelas.

Ouro Preto

Ouro branco! Ouro preto! Ouro podre! De cada
Ribeirão trepidante e de cada recosto
De montanha o metal rolou na cascalhada
Para o fausto Del-Rei, para a gloria do imposto.

Que resta do esplendor de outrora? Quase nada:
Pedras... Templos que são fantasmas ao sol-posto.
Esta agencia postal era a Casa de Entrada...
Este escombro foi um solar... Cinza e desgosto!

O bandeirante decaiu – é funcionário.
Ultimo sabedor da crônica estupenda,
Chico Diogo escarnece o ultimo visionário.

E avulta apenas, quando a noite de mansinho
Vem, na pedra-sabão, lavrada como renda,
- Sombra descomunal, a mão do Aleijadinho!

2 de setembro de 2009

A estrela e o Anjo

Vésper caiu cheia de pudor na minha cama
Vésper cuja ardência não havia a menor parcela de sensualidade
Enquanto eu gritava seu nome três vezes
Dois grandes botões de rosa murcharam

E o meu anjo da guarda quedou-se de mãos postas no desejo insatisfeito de Deus.