27 de julho de 2009

NIETZSCHIANA

- Meu pai, ah que me esmaga a sensação do nada!
- Já sei, minha filha... é atavismo.
E ela reluzia com mil cintilações do êxito intacto.

RONDÓ DOS CAVALINHOS

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
Tua beleza, Esmeralda,
Acabou me enlouquecendo.

Os cavalinhos correndo,
E nós cavalões, comendo...
O sol, tão claro lá fora,
E em minh'alma - anoitecendo!

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalçoes, comendo...
Alfonso Reyes partindo,
E tanta gente ficando...

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
A Itália falando grosso,
A Europa se avacalhando...

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalçoes, comendo...
O Brasil politicando,
Nossa! A poesia morrendo...
O sol tão claro lá fora,
O sol tão claro, Esmeralda,
E em minh'alma - anoitecendo!

21 de julho de 2009

OS VOLUNTÁRIOS DO NORTE

"São os do Norte que vêm!"
Tobias Barreto


Quando o menino de engenho
Chegou exclamando: - "Eu tenho,
Ó Sul, talento também!",
Faria, gesticulando,
Saiu à rua gritando:
- "São os do Norte que vêm!"

Era um tumulto horroroso!
- "Que foi?" indagou Cardoso
Desembarcando de um trem.
E inteirou-se. Senão quando,
Os dois sairam gritando:
- "E vêm os do Norte! E vêm!..."

Aos dois juntou-se o Vinícius
De Morais, flor dos Vinícius
E Melo Morais também!
- "Que foi?" as gentes falavam...
E os três amigos bradavam:
- "São os do Norte que vêm!"

Nisso aparece em cabelo
O novelista Rebelo,
Que é Dias da Cruz também!
Mais uma voz para o coro!
E foi um tremendo choro:
- "E vêm os do Norte! E vêm!..."

E o clamor ia engrossando
Num retumbar formidando
Pelas cidades além...
- "Que foi?" as gentes falavam,
E eles pálidos bradavam:
- "São os do Norte que vêm!"

15 de julho de 2009

CONTO CRUEL

A uremia não o deixava dormir. A filha deu uma injeção de sedol.
- Papai verá que vai dormir.
O pai aquietou-se e esperou. Dez minutos... Quinze minutos... Vinte minutos... Quem disse que o sono chegava? Então ele implorou chorando:
- Meu Jesus Cristinho!
Mas Jesus Cristinho nem se incomodou.

TRAGÉDIA BRASILEIRA

Misael, funcionário da Fazenda, com 63 anos de idade,
Conheceu Maria Elvira na Lapa - prostituída, com sífilis, dermite nos dedos, uma aliança empenhada e os dentes em petição de miséria.
Misael tirou Maria Elvira da vida, instalou-a num sobrado no Estácio, pagou médico, dentista, manicura... Dava tudo que ela queria.
Quando Maria Elvira se apanhou de boca bonita, arranjou logo um namorado.
Misael não queria escândalo. Podia dar uma surra, um tiro, uma facada. Não fez nada disso: mudou de casa.
Viveram três anos assim.
Toda vez que Maria Elvira arranjava namorado, Misael mudava de casa.
Os amantes moraram no Estácio, Rocha, Catete, Rua General Pedra, Olaria, Ramos, Bom Sucesso, Vila Isabel, Rua Marquès de Sapucaí, Niterói, Encantado, Rua Clapp, outra vez no Estácio, Todos os Santos, Catumbi, Lavradio, Boca do Mato, Inválidos...
Por fim na Rua da Constituição, onde Misael, privado de sentidos e de inteligência, matou-a com seis tiros, e a polícia foi encontrá-la caída em decúbito dorsal, vestida de organdi azul.

1933