6 de abril de 2009

O CACTO

Aquele cacto lembrava os gestos desesperados da estatuária:
Laocoonte constrangido pelas serpentes,
Ugolino e os filhos esfaimados.
Evocava também o seco Nordeste, carnaubais, caatingas...
Era enorme, mesmo para esta terra de feracidades excepcionais.

Um dia um tufão furibundo abateu-os pela raiz.
O cacto tombou atravessado na rua,
Quebrou os beirais do casario fronteiro,
Impediu o trânsito de bondes, automóveis, carroças,
Arrebentou os cabos elétricos e durante vinte e quatro horas
[privou a cidade de iluminação e energia:

- Era belo, áspero, intratável.

Petrópolis, 1925

3 comentários:

Raissa Paz disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Raissa Paz disse...

Uau! Que belo! Bandeira aqui faz um ótimo diálogo entre o rural e o urbano (isso foi algo que uma amiga minha compartilhou comigo e que, vendo-o agora, confirmo totalmente).

Anônimo disse...

lembrou a flor do drummond, muito bonito