4 de abril de 2009

NA RUA DO SABÃO

Cai cai balão
Cai cai balão
Na Rua do Sabão!

O que me custou arranjar aquele balãozinho de papel!
Quem fez foi o filho da lavadeira.
Um que trabalha na composição do jornal e tosse muito.
Comprou o papel de seda, cortou-o com amor, compôs
[os gomos oblongos...
Depois ajustou o morrão de pez ao bocal de arame.

Ei-lo agora que sobe - pequena coisa tocante na
[escuridão do céu.
Levou tempo para criar fôlego.
Bambeava, tremia todo emudava de cor.
A molecada da Rua do Sabão
Gritava com maldade:
Cai ca balão!

Subitamente, porém, entesou, enfunou-se e arrancou
[das mãos que o tenteavam.
E foi subindo...
para longe...
serenamente...
Como se enchesse o soprinho tísico do José.

Cai cai balão!

A molecada salteou-o com atiradeiras
assobios
apupos
pedradas.

Cai cai balão!

Um senhor advertiu que os balões são proibidos
[pelas posturas municipais
Ele foi subindo...
muito serenamente...
para muito longe...
Não caiu na Rua do Sabão.
Caiu muito longe... Caiu no mar - nas águas puras
[do mar alto.

Um comentário:

Sérgio Arruda disse...

Este poema me faz viajar até a minha infância no interior de Pernambuco, como aliás, muitos dos poemas de Bandeira.