14 de março de 2009

UM SORRISO

Vinha caindo a tarde. Era um poente de agosto.
A sombra já enoitava as moitas. A umidade
Aveludava o musgo. E tanta suavidade
Havia, de fazer chorar nesse sol-posto.

A viração do oceano acariciava o rosto
Como incorpóreas mãos. Fosse mágoa ou saudade,
Tu olhavas, sem ver, os vales e a cidade.

- Foi então que senti sorrir o meu desgosto...

Ao fundo o mar batia a crista dos escolhos...
Depois o céu... e mar e céus azuis: dir-se-ia
Prolongarem a cor ingênua de teus olhos...

A paisagem ficou espiritualizada.
Tinha adquirido uma alma. E uma nova poesia
Desceu do céu, subiu do mar, cantou na estrada...

6 comentários:

Maria das Neves disse...

Tomei conhecimento desse poema de Manuel Bandeira lendo "Memórias do Cárcere" de Graciliano Ramos. Está em um diálogo na prisão entre Graciliano e um outro preso político, do qual agora não me recordo a nacionalidade. Esse personagem critica a literatura brasileira dizendo que náos não temos nada importante, de qualidade.
Então Graciliano declama para ele esse poema e ele fica encantado.
A propósito, quem ainda não leu Memórias do Cárcere deveria fazê-lo. É uma aula de história e de humanidade.
Maria das Neves Valentim
Natal/RN

Nei kS disse...

Eu li outros livros do Graciliano, pode ser, Maria Valentim?

Anônimo disse...

Fazendo uma observação ao comentário da amiga Maria das Neves. O nome do preso político é: Sérgio. Isto é pseudônimo. Nome verdadeiro é: Rafael Kamprad. E sua nacionalidade era russo. Quem quiser saber mais desse deleitoso diálogo de grande valia para aos que têm sede de conhecimento de qualidade. Recomendo que leia "Memórias do Cárcere" volume 1 e 2 desse que é considerado se não o maior escritor Nordestino que o Brasil já teve. Esse dialogo encontra-se nas laudas 209, 227 a 232. Ao respeito do poema "O Sorriso" de Manuel Bandeira, obtive esse conhecimento de forma análoga da amiga Maria das Neves.
Para quem quiser travar conhecimento ao respeito da vida e obra de Garciliano Ramos estarei aberto para o debate meu e-mail é leo_lbc@hotmail.com pode adicionar

samuel disse...

Assim como nossa amiga Maria das Neves eu tomei conhecimento deste soneto ao ler o livro "Memórias do cárcere" de Graciliano Ramos.
Faço elogios a amiga ao indicar a obra maravilhosa do grande romancista.

Maria das Neves disse...

Encontrei o diálogo em Memórias do Cárcere:
Graciliano narra que o russo chamado Sérgio Schneider "(...) aprendia o português com facilidade incrível. (...) não simulava nenhuma espécie de consideração às nossas letras, pouco mais ou menos inexistentes. (...) Um dia, como ele desacatasse rijo os sonetos, nada mais enxergando na poesia brasileira, interrompi-o:
- Vou recitar-lhe um soneto, Sérgio.
E atirei-lhe 'O Sorriso' de Manuel Bandeira. Sérgio ouviu-me atento, murmurou com espanto:
- Oh!Vocês aqui têm disso?
Em noutro tom:
Ainda não conheço o Brasil. Leviandade manifestar-me sobre ele. (...)"

Ronaldo S. disse...

É um poema lindíssimo. Temos uma página com obra de Bandeira, caso queira conhecer: https://www.facebook.com/pages/Manuel-Bandeira-Profundamente/254088684661520
É sempre bom compartilhar poesia.
Parabéns!